segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Hoje é o dia Nacional do Folclore

Recebendo Medalha Folclorista Emérito Brasileiro
Hoje, dia 22 de agosto, é comemorado no Brasil o dia Nacional do Folclore, mas vão dizer que folclore é festejado durante todo ano, todos os meses e que faz parte da nossa vida cotidiana. Então para que comemorar esse dia com especial atenção como dia do folclore? Porque nesse dia deveríamos lembrar com todas as homenagens os pioneiros dos estudos e das pesquisas do nosso folclore, também os mestres e brincantes dos folguedos e das danças, os artesãos, cantadores, emboladores, os poetas e tantos outros que continuam lutando contra quase tudo para manter o nosso folclore vivo e atualizado.
Sem dúvida é uma data carregada de significados, é no dia 22 de agosto que as escolas mobilizam professores e alunos em busca de informações para saber melhor o que é o folclore. Portanto, hoje 22 de agosto gostaria de prestar a minha homenagem a grandes amigos estudiosos do folclore que contribuíram para minha formação no campo de um novo entendimento do folclore e da folkcomunicação.  
Lembro aqueles com quem convivi por mais de 30 anos realizando e participando de estudos, pesquisas, seminários, simpósios e grupos de trabalho, tanto aqui na Universidade Federal da Paraíba, como na Comissão Paraibana de Folclore, na Comissão Nacional de Folclore e na Rede Folkcom.  Amigos e mestres como Bráulio Nascimento, Roberto Benjamin, Luiz Antônio Barreto, Altimar Pimentel, Tenente Lucena, Dalvanira Gadelha, Paulo de Carvalho Neto, Théo Brandão, José Marques de Melo, Luiz Beltrão, Jackson Lima, Cassia Frade, Neuma Fechine, Beatriz Dantas e Aglaé D’ávila. 
Com todos esses convivi e ainda convivo, seja presencialmente ou através dos seus estudos e suas lembranças nos grandes momentos de aprendizados sobre o nosso folclore, mas não poderia deixar de prestar a minha homenagem aos pioneiros dos estudos do folclore no Brasil como Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Silvio Romeiro, Edison Carneiro e tantos outros que com suas publicações são referências para os meus estudos. 
Minhas homenagens a todos que direta ou indiretamente me motivaram a continuar os estudos do nosso folclore e da folkcomunicação.  


       




quarta-feira, 16 de março de 2016

MetaCiência na prática


Nesta segunda-feira a convite do professor Marcos Nicolau participei da aula de abertura do semestre letivo de 2016 do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação-PPGC da Universidade Federal da Paraíba-UFPB. Foi um reencontro com professores e alunos para um breve debate sobre as tendências da pesquisa no campo da ciência da comunicação e também para “matar” a saudade da sala de aula, de onde já estou afastado há algum tempo. Na ocasião o professor Marcos Nicolau lançou o livro MetaCiência na prática para lidar com a pesquisa científica, para o qual, com muita honra, fiz o prefácio e apresentação, que transcrevo a seguir.
Era uma manhã de verão quando recebi um telefonema do professor Marcos Nicolau convidando-me para fazer a apresentação deste livro. Fiquei surpreso com o convite porque já estou aposentado há algum tempo e um pouco fora de forma da vida acadêmica. Mas, como nunca deixei de ser pesquisador, aceitei o convite. E, como acompanho a formação do professor Marcos Nicolau, desde a sua iniciação acadêmica na graduação, eu como professor e ele como aluno, depois como colega na graduação e na pós-graduação sabia que este livro tinha algo de inovador e, com certeza, trazia contribuições importantes, diria até provocativas, a partir do título “MetaCiência na prática: para lidar com a pesquisa cientifica”.

A metaciência é uma disciplina convergente constituída de reflexões sobre a própria ciência. Melhor dizendo, é a ciência que estuda a ciência. Marcos puxa esse tema para o campo de pesquisa da ciência da comunicação, com novas perspectivas. Assim penso eu. O livro, traz ainda, discussões saudáveis e pertinentes aos aspectos epistemológicos da metaciência quando tenta solucionar ou minimizar, através do diálogo, a permanente e quase sempre conflituosa relação entre orientador e orientando.

Neste livro Marcos levanta uma série de questões principalmente na hora das definições do emprego da metodologia e do método, da teoria e da prática, que é sem dúvida um dos momentos de grandes tensões entre orientador e orientando. Aí, vem mais uma salutar provocação do autor quando explica e constrói um mapa tipológico de cinco possíveis conflitos existentes em quase todas as etapas da pesquisa, do início até o fim entre orientador e orientando, e ele vai buscar, novamente, essas explicações no senso comum. Ou seja, o conflito patrão e empregado, policial e bandido, Faixa de Gaza, marido e mulher, pai e filho.

Deste modo, este livro, sem ser uma cartilha e muito menos um manual engessado de como fazer uma pesquisa, ao contrário, possibilita uma série de reflexões de como lidar com a pesquisa, apontando caminhos cheios de alternativas para um embate construtivo e quase sempre sem fim entre orientador e orientando. O autor demonstra os vários percursos para se pensar sobre a teoria e a pratica, a metodologia e o método, como ingredientes intrínsecos ao trabalho científico, mas sem restringir, sem tolher a liberdade e a criatividade dos envolvidos na pesquisa, principalmente do orientando. E é de uma felicidade enorme quando seleciona uma metáfora como explicação didática para distinguir o que é metodologia e o que é método. Distinção essa que é quase sempre um problema para o pesquisador iniciante ao trabalho cientifico e até mesmo para os mais experientes.

Marcos define a metodologia, "...como o conjunto de conhecimentos em que se estuda os melhores procedimentos praticados em determinada área para a produção desse desejado conhecimento". E explica “...o método como o processo através do qual podemos alcançar um determinado fim que buscamos conhecer ou desvendar”. Mas, é usando a metáfora do sujeito que vai morar perto de um lago e planeja a melhor maneira de pescar camarão. Na exemplificação, através dessa metáfora, Marcos Nicolau consegue, com bastante clareza, a definição de metodologia e método de pesquisa, e mais um a vez vai encontrar o exemplo no senso comum.

Adiante, o professor Marcos faz uma pertinente provocação, bastante interessante quando chama a atenção para as possíveis e viáveis transgressões, às vezes necessárias, das enfadonhas etapas de formatação, de normatização da mera exigência estética para deixar o trabalho científico “arrumadinho”. O autor deixa bem evidente que não se trata de uma atitude de subversão, de coisa estabanada, de uma aventura metodológica ou mesmo da transgressão pela transgressão, e sim, de diferentes procedimentos no decorrer da pesquisa, que emergem conforme as necessidades de cada momento com o objetivo de melhor obter os resultados desejados. E mais uma vez inova quando afirma que é o pesquisador quem deve dar adequada função às regras normativas e formatação do trabalho final. Não é a obediência cega às regras normativas da ABNT que torna um trabalho científico melhor; o importante é que se tenha o domínio, o conhecimento das regras e normas vigentes da ABNT, e transgredi-las quando se tem certeza de estar inovando e criando regras normativas para um melhor andamento do trabalho científico, nada deve ser gratuito ou ser impedido. Não são essas novas regras e normatizações, quando justificadas metodologicamente, que irão tirar o mérito do trabalho de pesquisa.

Com esse pensamento, o autor não quer dizer que o trabalho científico não tenha regras, não tenha normas e nem rigor metodológico, mas o trabalho de pesquisa não é uma coisa engessada, não existe uma linearidade, não é uma receita de bolo com pesos e medidas pré-estabelecidos, principalmente quando se trata do campo de pesquisa nas ciências humanas. Acho que é nesse ponto que Marcos avança nos seus questionamentos e neste livro traz contribuições importantes para uma melhor aproximação entre orientador e orientando.

Marcos Nicolau, mesmo como um professor e pesquisador experiente que já atingiu a sua maturidade acadêmica, demonstra, neste livro, suas inquietudes e as necessidades de se buscar, permanentemente, alternativas metodológicas e métodos da pesquisa para o campo da ciência da comunicação.

Tabatinga/PB, verão de 2016

Osvaldo Meira Trigueiro

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Vivendo e aprendendo nos carnavais com Roberto Benjamim


"Ô ô ô saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube das Pás, do Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletas de lá
Batidas de bombos
São maracatus retardados
Chegando à cidade, cansados,
Com seus estandartes no ar.
Que adianta se o Recife está longe
E a saudade é tão grande
Que eu até me embaraço
Parece que eu vejo
Valfrido Cebola no passo
Haroldo Fatia, Colaço
Recife está perto de mim".

(Frevo nº 1 do Recife/Antônio Maria)
(Interpretação:Coral Madeira de Lei)

Hoje logo cedo, como sempre faço, liguei o rádio e estava tocando o "Frevo Nº1 do Recife" do compositor e poeta Antônio Maria. Aí bateu uma saudade danada dos carnavais dos anos 70 e 80, quando ainda morava no Recife e quando conheci o professor Roberto Benjamim, meu professor no curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Aí, também bateu uma saudade danada desse professor, do pesquisador e do grande amigo Roberto que me ensinou quase tudo que sei das nossas festas populares, do nosso folclore, inclusive do carnaval.
Por muitos anos Roberto estudou com muito critério a história e as transformações do carnaval do Recife, de Pernambuco e porque não dizer do carnaval da Paraíba e do Brasil, no contexto da sociedade midiática.  Bateu uma saudade danada das nossas caminhadas de campo observando as festas populares do carnaval nas áreas urbanas, rurais e rurbanas do litoral norte de Pernambuco e o litoral sul da Paraíba, em busca dos caboclos de lanças dos maracatus, dos caboclinhos das tribos indígenas, dos papangus, dos ursos e bois de carnaval, dos blocos e troças, dos homens vestidos de mulher e de tantas outras brincadeiras do carnaval. Ou seja, do carnaval do jeito que o povo faz.
Era uma maratona de 10 a 12 horas por dia do domingo à terça de carnaval, observando e documentando tudo que nos interessa. Nos saíamos, eu e Rosinha e às vezes alguns alunos, daqui de João Pessoa para o litoral sul da Paraíba, passando pelo Conde, Pitimbu, Caaporã, Alhandra, Pedras de Fogo e, Roberto com a sua equipe saía do Recife, passando por Aliança, Carpina, Timbaúba, Araçoiaba e o nosso encontro era em Goiana já no final da tarde do domingo. Voltávamos até Araçoiaba para observar "A Trincheira do Maracatu Cambindinha" comandado pelo mestre Dédinha, que é sem dúvida uma das mais importantes manifestações dos maracatus de Pernambuco. E assim, durante mais de 15 anos realizamos importantes pesquisas empíricas e tudo sempre coordenado por Roberto Benjamin.
E foi assim durante anos, quando poucos ou quase nenhum pesquisador das universidades se interessavam pelo carnaval rural ou das pequenas cidades interioranas que estavam fora dos acontecimentos midiáticos. Nesta época Roberto Benjamin já realizava observações, registros e publicações sobre as transformações dos festejos carnavalescos urbanos e rurais na divisa dos dois estados, refletindo sobre as suas transformações influenciadas pela globalização da comunicação.
Cada caminhada, cada observação do carnaval era um novo aprendizado. E por muito tempo o trabalho de pesquisa desenvolvido por Roberto Benjamim foi ignorado pela universidade e por colegas seus, que achavam que o carnaval não era manifestação artística e cultural merecedora de espaços de estudo na academia.
Roberto Benjamin, às vezes se queixava da falta de interesse, de colegas seus e de alunos, sobre as pesquisas na área da Folkcomunicação cujo objeto de estudo é a cultura popular e o nosso folclore no campo comunicacional, mas nunca pensou em desistir e sempre acreditou no que fazia. Posso dizer que passei por esses mesmos problemas quando iniciei as minhas pesquisas sobre cultura popular e o folclore na Universidade Federal da Paraíba em meados dos anos 70 do século passado. E assim Roberto persistiu, contra quase tudo e quase todos conseguiu estruturar um grupo de discípulos que se espalharam por várias universidades do pais e no exterior, e que na atualidade estão consolidando as pesquisas da Folkcomunicação.
Eu estou incluído nesse grupo e chegando aos meus 69 anos de vida e mais de 40 anos de estudo e pesquisa da Folkcomunicação continuo aprendendo com Roberto Benjamim.  Aqui, fica esse registro em memória de Roberto, que deixou como um dos seus legados um rico acervo em quantidade e qualidade sobre o "Carnaval do jeito que o povo faz". E não tem jeito, lá vamos nós mais uma vez a campo retomando esses caminhos desbravados por Roberto Benjamim. 
Êita saudade...











quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal - tempo de reflexão e solidariedade

O nascimento do Menino Jesus, contado através dos nossos presépios, do jeito que o povo nordestino festeja com cantos e folguedos populares.




















quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Fantástico São João de Portugal

Foto de Osvaldo M. Trigueiro
Campina Grande tem o Maior São João do Mundo, Caruaru o Melhor São João do Mundo; Patos, das espinharas (que este ano fez uma justa homenagem ao grande forrozeiro Pinto do Acordeon), tem o Melhor São João do Sertão; e Aracaju/Sergipe, o Forró Caju só para citar aqui algumas cidades do Nordeste brasileiro que realizam grandes festas no mês de junho, as quais já vivi, onde com ou sem crise econômica e seca o povo sai às ruas para festejar o São João.
 Mas, sem dúvida, Portugal tem um São João Fantástico. O país vive anualmente a tradicional festa de norte a sul. É impressionante como os santos populares, Santo Antônio, São João e São Pedro, são festejados com tanta devoção e alegria.
Foto de Osvaldo M. Trigueiro
Em Lisboa, a grande festa da cidade é para Santo Antônio com o desfile das Marchas Populares, na Avenida da Liberdade e os bailes tradicionais – Arraiais – na Alfama, na Mouraria, no Castelo de São Jorge e em tantos outros lugares da cidade. 

No Porto, a festa se espalha pelas ruas com as batalhas dos martelinhos e do alho porro tendo como grande momento da festa o espetáculo pirotécnico – o grande fogo – no rio Douro entre a ponte Dom Luís I e o Cais de Gaia. Em Lisboa e no Porto as festas para Santo Antônio e São João, são megaeventos midiáticos para onde convergem milhares de turistas para participar das grandes festas do início de verão.
Mas, quem tem interesse em conhecer as festas dos santos populares que ainda preservam as tradições religiosas e profanas, organizadas pela comunidade e para a comunidade deve, na oportunidade, ir a Braga e ao Valongo/Sobrado no dia de São João. As duas cidades ficam próximo ao Porto. 
E não fica só por aí, a festa toma todos os lugares, nas grandes cidades, nas vilas e nas aldeias onde as ruas são enfeitadas com balões e bandeirolas para alegrar o São João. Na Lomba D’Égua, freguesia de Fátima, e em Vilar dos Prazeres, freguesia do Castelo de Ourém, a festa é de toda a gente do lugar, dos que moram longe e dos que lá estão, é uma festa típica das aldeias e vilas portuguesas, de reencontro e de convívio das famílias.
No Brasil, na época de São João a comida típica é à base do milho verde, o maior símbolo gastronômico da nossa tradicional festa. Em Portugal é a sardinha a maior referência gastronômica das festas juninas. Não é apenas uma comida é, na verdade, um bem cultural imaterial, conservado com muito carinho pelos portugueses.  
Nos dias de festa o cheiro da sardinha assada se espalha no ar e em cada esquina sempre tem alguém assando sardinha e, nos restaurantes, nas tascas e nos botecos o prato do dia é sardinha com pão, batata, vinho e muito azeite. Não vi festa de São João sem esses ingredientes da comida típica portuguesa, sem fogos de artifício e balões que iluminam os céus de Portugal onde ainda não é proibido soltar balões porque há, um acordo de corresponsabilidade entre baloeiros e as autoridades, ambos sempre em permanente vigilância. 
Milhares de pessoas de diferentes nacionalidades encheram as ruas, os restaurantes, as tascas, os botecos, madrugada a dentro e tudo em total segurança. Andamos por todos esses lugares de dia e de noite e não vimos qualquer policiamento ostensivo e nenhuma ocorrência que nos chamasse atenção, por menor que fosse, nem nas grandes nem pequenas cidades.      
As fotografias que registraram esses diferentes momentos juninos aqui em território lusitano, foram feitas por mim e Rosinha no período de 12 a 29 de junho de 2015, como testemunho ocular do Fantástico São João de Portugal.  
Viva São João! Sempre!